O que é um perfume.

“Ao misturar o álcool com os seus pós aromáticos e transferindo dessa maneira o perfume para um líquido evanescente, libertara o perfume da matéria, espiritualizara o perfume, inventara o odor puro, criara, numa palavra, o que se designa como perfume.
(…) uma fórmula mágica, tudo o que compõe um belo e maravilhoso odor, tudo o que compõe um perfume: delicadeza, força, durabilidade, diversidade e uma irresistível e temível beleza. ”

Citação do livro “O Perfume” de Patrick Suskind


Um perfume é uma mistura complexa de compostos químicos com cheiro agradável, que possui uma identidade olfactiva própria, diferente do odor das matérias-primas que foram utilizadas na sua composição
Os componentes usados diferem largamente nas suas propriedades físico-químicas e olfactivas, nomeadamente a volatilidade, a solubilidade, a polaridade e o odor threshold, pelo que os perfumes são misturas dinâmicas: as diferentes interacções entre as moléculas na mistura afectam a sua evaporação, e consequentemente o odor do perfume desenvolve-se e evolui ao longo do tempo, acabando por desvanecer-se ao fim de algumas horas após a sua aplicação.

Para além de ter uma identidade bem definida, tem de obedecer a certos requisitos técnicos:

  • Utilizar matérias-primas/essências de qualidade
  • Reter as suas características principais durante todo o período de evaporação, após aplicação
  • Ser suficientemente forte, mas não em excesso…
  • Ser persistente
  • Ser difusivo

Um perfume de uso corporal corresponde a uma mistura alcoólica com a seguinte composição aproximada:

Tabela 1 – Composição de um perfume.

Ingrediente Fórmula  %(m/m)
essências 5% – 20%
álcool etílico 50% – 90%
água destilada 5% – 30%


Os materiais fragrantes utilizados em perfumaria são classificados em três tipos de notas perfumadas consoante a sua volatilidade, definindo a estrutura piramidal da composição de um perfume.

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Nem todas as flores cheiram bem!

A raríssima flor cadáver, também conhecida como a planta mais mal cheirosa do mundo, começou a florescer e vai desabrochar dentro de dias na Universidade McMaster (Ontário,  Canadá) e é uma de das poucas no mundo a desabrochar este ano.

Segundo a pagina web da Estufa de Biologia daquela universidade, assim  que a flor começou a abrir o aroma a podre começou a invadir toda a área envolvente da planta.

Quando acabar de abrir, a planta chamada titan arum , vai libertar  um cheiro muito semelhante ao de carne em decomposição. Esta planta floresce apenas por alguns dias. É autóctone na floresta tropical de Sumatra, Indonésia,  esta planta grande e roxa chega a crescer mais de metro e meio e demora alguns anos até dar flor.

Esta curiosa planta está em exposição na estufa de Biologia da Universidade de Segunda a Quarta, das 9 as 23.

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Traduzido e adaptado de : http://www.perfumerflavorist.com/

A ciencia do Olfacto


A indústria de aromas e fragrâncias oferece a possibilidade de viver novas experiências sensitivas através da criação de novas moléculas com novos aromas e sabores. Esta procura crescente de novidade direccionou as atenções da comunidade científica, industrial e da sociedade para o sentido do olfacto, depois de séculos em que este sentido havia praticamente caído no esquecimento. Os perfumes que acompanham a história da humanidade desde sempre, ganham assim um importante destaque nos dias de hoje.

Os sentidos do olfacto e do paladar são sentidos químicos, muito antigos, muito sensíveis, sofisticados e complexos, que remontam aos primeiros seres vivos unicelulares.

Mesmo para os seres humanos, que ao longo dos séculos relegaram o olfacto para um plano muito secundário, este continua a desempenhar um papel muito importante na nossa vivência, tal como:

  • Protecção: Sinal de alerta para cheiros a fumo ou comida estragada;
  • Estimulação do apetite: o sabor é uma combinação de paladar, textura e aroma dos alimentos;
  • Comunicação: os bebés reconhecem a sua mãe pelo cheiro ou a atracção sexual é estimulada pela libertação de feromonas femininas e masculinas;
  • Terapia: utilização do olfacto na aromaterapia e na medicina, sabendo-se que as fragrâncias causam sensação de bem-estar, relaxamento, reduzem o stress e a depressão e melhoram a auto-imagem e as relações sociais e pessoais.

Os seres humanos têm a capacidade de reconhecer milhares de odores distintos, existindo 1000 genes diferentes (correspondente a 3% do nosso capital genético total) que codificam outros tantos receptores olfactivos (proteínas).

Em 2004, os cientistas Linda B. Buck e Richard Axel receberam o Prémio Nobel da Medicina, como reconhecimento pelo seu trabalho muito importante relativo aos receptores de odores e à organização do sistema olfactivo. Eles descobriram como as moléculas fragrantes se ligam aos receptores proteicos na superfície das células olfactivas do nariz, que por sua vez emitem um sinal eléctrico para o bolbo olfactivo e daqui para o sistema límbico do cérebro, que está associado ao nosso subconsciente e que controla o pensamento, as emoções e as memórias.

Quando vemos, ouvimos, provamos ou tocamos, analisamos as primeiras informações que nos chegam aos sentidos. No entanto, quando cheiramos, acedemos imediatamente a um sentimento ou memória, de uma forma muito mais vívida do que com qualquer outro sentido devido a esta ligação estreita entre o olfacto e o sistema límbico.

Na falta de informação da área científica da Biologia relativamente ao mecanismo e funcionamento do olfacto, as duas principais teorias do olfacto baseiam-se na observação do processo global para descrever o sentido olfactivo:

Teoria da forma das moléculas, apresentada por Beets (1968) e Amoore (1970): a resposta olfactiva é determinada pela forma das moléculas fragrantes, em que uma dada molécula encaixa em um ou mais receptores nasais, gera um sinal, produz uma sensação de cheiro e é reconhecida e/ou identificada se for um aroma que já se contactou e/ou conhece. A interacção entre as moléculas e os receptores assemelha-se a um sistema de chaves (moléculas fragrantes) e fechadura (receptores nasais).

Teoria vibracional, defendida por Dyson (1937), Wright, (1977) e mais recentemente Luca Turin (1996): os receptores nasais são sensíveis às vibrações moleculares dos compostos odoríferos, gerando um sinal que é interpretado pelo cérebro como sendo um odor. Assim sendo, moléculas que emitam vibrações semelhantes serão interpretadas pelos receptores nasais como apresentando o mesmo cheiro.

As duas teorias apresentam inconsistências, pelo que definir o mecanismo do olfacto continua a ser um desafio. A compreensão de como funciona o olfacto representará um avanço importantíssimo para a indústria da perfumaria (fragrâncias) e alimentar (aromas), uma vez que seria possível prever o odor de novas moléculas, sem necessidade de as sintetizar e avaliar, ganhando-se tempo e reduzindo custos na pesquisa e desenvolvimento de novos ingredientes para os perfumes e alimentos.sentido olfacto

Transformar o suor em perfume.

Um grupo de investigadores da Universidade de Queen´s em Belfast, Irlanda do Norte, coordenado por Nimal Gunaratne, publicaram em Abril um estudo científico* em que desenvolveram um sistema de libertação controlada de perfume que é activada por água. Assim quanto mais se transpira, melhor se cheira pois um aroma é libertado em contacto com a humidade.

Numa primeira fase é feita uma síntese química em que se cria a ligação química entre a molécula fragrante e um sal líquido. Este conjunto não tem odor uma vez que o sal não é volátil. Numa segunda fase, a molécula fragrante liberta-se quando entra em contacto com a água, que quebra a ligação química, sentindo-se então o seu aroma.
Este processo tem a vantagem adicional de remover os compostos de tiol responsáveis pelo mau odor do suor, que ficam agarrados aos sais e são assim neutralizados.

Estudos da cinética da reação química mostraram que a velocidade de libertação do aroma aumenta com o aumento da quantidade de água presente na mistura. Verifica-se também que a perda de fragrância por reações secundárias é mínima, tratando-se de uma libertação controlada do aroma limpa e praticamente quantitativa.

Esta descoberta tem um enorme potencial comercial para o desenvolvimento de produtos inovadores no sector gigantesco dos produtos de cuidado pessoal e beleza. É um bom exemplo de investigação científica aplicada que pode dar um fantástico contributo para o bem-estar das pessoas.

reação suor perfume

*H. Q. Nimal Gunaratne, Peter Nockemann and Kenneth R. Seddon, Chem. Commun, 2015, 51, 4455-4457